Atacama: Vulcão Lascar



Sábado, 6 de julho de 2024.

Era nosso sexto dia no Deserto do Atacama quando fomos subir o Vulcão Lascar, um dos diversos vulcões em atividade do Chile e o mais ativo da região de Antofagasta.

A ideia foi deixar essa aventura para os últimos dias para fazer uma aclimatação adequada para a altitude.

Neste dia iríamos apenas nós e o guia, não porque contratamos uma tour privada ou algo do tipo, mas sim porque estávamos dando sorte e a agência não tinha mais ninguém agendado para o passeio. Mas era uma boa tour estavam incluídos um café da manhã antes da subida ao vulcão, e um almoço na volta.

Nosso guia combinou de nos pegar no hotel às 5h da manhã, então deixamos tudo pronto na noite anterior para poder levantar cerca de meia hora antes sem problemas.

Fazia muito frio, com temperatura próxima de zero graus em San Pedro de Atacama.

Ainda bem que o hotel dispunha de uma conveniente estação de cafés e chás funcionando 24h, pois podíamos ficar lá aguardando nossa carona tomando uma bebida quente.

O saguão vazio do hotel na madrugada de sábado.

O providencial balcão de cafés e chás do hotel La Casa de Don Tomás.

O guia David chegou ao hotel por volta das 5h15, e antes de seguir viagem ele ainda passaria por uma padaria, para pegar nosso café, e também na base da agência de turismo para pegar uns capacetes que ainda vão protagonizar uma parte deste relato.

Seguindo viagem pela Ruta 23 rumo ao Vulcão Lascar.

O Vulcão Lascar fica a 68 km de San Pedro de Atacama, e boa parte da viagem foi em uma tranquila e bem mantida rodovia asfaltada.

Cerca de 50 min depois chegamos ao povoado de Talabre, onde se podia adquir a permissão de subida ao vulcão, uns ingressos que foram pagos separadamente.

Ali também foi possível usar os banheiros que ficavam em um centro comunitário atrás da guarita.

A Caseta Turismo onde se obtinha os ingressos para subir o Vulcão Lascar.

A viagem continuou então, por cerca de 1h, através de uma longa estrada de terra até região da Lagoa Lejía .

Estrada de terra no caminho até a Lagoa Lejía.

Marcava -7 °C no termômetro externo da caminhonete (12.8 °C dentro do carro).

Ainda paramos em outro ponto de controle no percurso até a Lagoa Lejía.

Íamos tomar o café da manhã em um mirante improvisado, num ponto mais alto nas proximidades da Lagoa Lejía.

A estrada que levava até o mirante na Lagoa Lejía.

La embaixo, o isolado posto de controle que paramos antes de chegar na Lagoa Lejía.

O mirante da Lagoa Lejía era um lugar popular para uma parada para o café da manhã.

O guia ficou preparando o café, se abrigando na porta do maleiro da caminhonete, buscando proteção contra o frio e o vento.

O guia preparando o café no mirante da Lagoa Lejía, com o Lascar ao fundo.

Apesar do frio intenso e do vento forte, o dia amanheceu belíssimo e o cenário, emoldurado por vulcões e com uma linda vista da lagoa, era espetacular.

O estonteante cenário no mirante da Lagoa Lejía.

Os vulcões Lascar, Aguas Calientes e Cerro Pili vistos do mirante da Lagoa Lejía.

No centro da foto, ao fundo, o Vulcão Lascar, nosso objetivo naquele dia.

Um espetáculo da natureza no deserto do Atacama.

A Lagoa Lejía.

Se sentindo abençoados por poder ter estado ali.

Observando vulcões na gelada manhã do deserto.

Agora sim, rumo ao Vulcão Lascar.

O trecho da Lagoa Lejía até a base do Vulcão Lascar foi um pouco "fora de estrada", já que as rodovias eram parcialmente demarcadas, e provavelmente seria inviável trafegar por lá sem um veículo preparado para terrenos pedregosos.

Uma picape fazendo a rota para o Vulcão Lascar.

A base do Lascar ficava a cerca de 4800 m de altitude, e dali parte uma trilha se 3 km até a a borda da cratera ativa do vulcão, cujo cume fica a 5596 m.

Picapes dos exploradores estacionadas na base do vulcão.

Até este momento pode-se dizer que tudo foram flores.

Nosso guia vinha, durante a viagem, nos dando instruções sobre a subida, que tínhamos que ir dando passos bem lentos, com calma, cada um no seu tempo, com uma respiração controlada, inspirando o ar pelo nariz, soltando pela boca.

Ao chegarmos à base foi preciso descarregar alguns equipamentos, uma mochila grande que parece que continha uns apetrechos para escalada e cilindro de oxigênio (itens que nunca foram usados), uns bastões de trilha que usamos na subida, além dos famigerados capacetes.

Pois bem, ali na base as rajadas de vento já eram tão fortes e repentinas, que uma delas bateu com bastante força a porta do maleiro, que abria lateralmente, nas costas do guia.

Então ficamos lá segurando aquela porta e ajudando-o a retirar os itens, que eram colocados ao lado do carro. Inclusive os capacetes, que pusemos ali também sem pensar muito sobre o assunto.

Parte do equipamento deixado ao lado do carro enquanto o guia descarregava os itens.

Apenas quando já estava tudo descarregado e a porta do maleiro foi fechada, nos demos conta que o vento havia levado os capacetes morro abaixo.

E o David resolveu ir atrás deles, correndo, a pé mesmo.

Acredito que ele pensou que podia alcançá-los logo, mas o vento os levava cada vez mais a cada rajada.

E lá foram eles, rolando, rolando... E o cara atrás, correndo, correndo.

Sei que parece cômico, mas teve um potencial bem grande de tornar-se trágico.

Os capacetes não paravam de rolar com o vento forte.

Lá foi o guia, correndo atrás dos capacetes.

Aguardando o guia voltar com os capacetes.

Outros problemas deste dia, além do vento extremamente forte, foram o mal de altitude e a sensação térmica.

A foto a seguir é reveladora e ilustra um pouco o que enfrentamos. A pessoa que fotografei ali era uma mulher que se sentiu mal com a altitude, com os ventos fortes e com o frio, e decidiu não subir, retornando ao carro para esperar o parceiro dela, que continuou a trilha com o guia que os trouxe.

Sabemos disso pois ela mesma nos contou seu drama na segunda-feira quando, por coincidência, pegamos juntos uma minivan que nos levaria até o aeroporto de Calama.

Essa mulher desistiu de subir o vulcão.

Mas tenho meu próprio drama para contar.

No final vou estar feliz, mas tive que percorrer um longo e extenuante caminho para chegar ao final.

Retrocedendo seis dias, já na tarde em que chegamos em San Pedro de Atacama, passei a sentir os efeitos de um resfriado. Penso que devo ter contraído algum vírus no voo de Santiago para Calama... Lembro de um passageiro ao nosso lado que não parava de tossir.

Nos dias seguintes a situação parecia estável, tinha alguma dificuldade para respirar e sofria bastante com o tempo seco, expelindo bastante coriza e sangue ressecados durante a noite. Mas conseguia diminuir os efeitos do resfriado tomando chás feitos com Tapsin Caliente, um medicamento que foi indicado por um local e que continha paracetamol, noscapina e vitamina C.

Dessa forma obtive alívio suficiente para fazer todos os passeios com sucesso, incluindo uma trilha para as Termas de Puritama a 3500 m, e os passeios das Piedras Rojas e Lagunas Altiplânicas e dos Geisers do Tátio, ambos a mais de 4200 m de altitude.

Mas ali no vulcão estava sendo diferente. A partir do momento que pisei fora da picape, na base do Lascar a 4800 m de altitude, percebi que algo não estava normal.

Senti imediatamente uma tontura e um pouco de enjoo.

Pensei comigo que poderia ser algo da mente, já que estávamos a semana toda na expectativa desta subida, pensando nela em cada um dos outros passeios, em que deixamos de beber álcool, mesmo tendo opções em abundância oferecidas pela agência nos almoços, e nos preparando adequadamente fazendo a aclimatação em outras trilhas e passeios de altitude.

Só que eu nunca havia passado tão mal em toda a minha vida como passei nesta trilha naquele dia.

A subida foi horrível. E a descida iria ser ainda pior.

A sensação era de -15°C, o clima seco, o ar rarefeito e os ventos fortíssimos soprando não apenas poeira, mas também pedrinhas. Foram dias encontrando pedrinhas do Lascar nos bolsos das jaquetas e mochilas.

O vento era tão forte que, quando vinham as rajadas, tínhamos que fincar os bastões no chão e ficar nos segurando, parados, confrontando o vento e esperando que a rajada passasse para poder continuar. O risco de escorregar pelas encostas pedregosas e desoladas abaixo parecia bem real naqueles momentos.

Da metade da trilha em diante eu não conseguia mais respirar pelo nariz, que estava completamente entupido e tão gelado que parecia que ia cair. Então eu respirava apenas pela boca e a garganta secava com o ar gelado, e acabava engolindo muita poeira com o vento. Aí eu tentava respirar tapando a boca com o cachecol, mas o oxigênio nessa altitude já estava muito rarefeito, e consumindo menos ar meu enjoo e cansaço pioravam.

Eu queria acompanhar o ritmo imposto pelo guia, que talvez tenha se afetado com o episódio dos capacetes e esquecido completamente aquela conversa "zen" sobre caminhar devagar e ir no seu tempo. Ele mesmo, quando chegou no topo do vulcão, parecia estar exausto.

A Lu estava acompanhando o ritmo muito bem, não passou mal e foi muito parceira, me dando inspiração e força e para continuar. Mas eu precisava dar uma parada e descansar de tempos em tempos para conseguir seguir em frente.

Não sou de reclamar de desafios deste tipo e de desistir facilmente. E graças a Deus não precisei desistir, porque sei que não ter conseguido ia me fazer sofrer muito mais do que o sofrimento que passei subindo e descendo a trilha naquele dia.

Foram muitos gemidos, gritos de raiva para tentar conseguir forças e talvez algum choro também, mas algumas horas depois eu estava lá, na beira da cratera de um vulcão em atividade a quase 5600 m de altitude, emocionado não só por ter conseguido, mas também porque aquele lugar, meu amigo, minha amiga, é indescritível.

A imponência da cratera do Vulcão Lascar é um desses lugares cuja magnitude é impossível de entender por vídeos, por fotos ou por relatos emocionados. Mas a gente sempre tenta. Foram menos registros e de menor qualidade do que gostaria de ter feito, dadas as condições fisiológicas e atmosféricas da subida, mas aqui estão eles.

Vídeo: Subindo o Vulcão Lascar.

O começo da subida ao Vulcão Lascar.

Terreno pedregoso e desolado na montanha do Lascar.

Vista do vale no Vulcão Lascar.

Uma parada para descanso durante a subida ao Vulcão Lascar.

Cenário durante uma das paradas na subida ao Vulcão Lascar.

Quase chegando ao topo.

Terreno de pedras obviamente vulcânicas no Vulcão Lascar.

Cenário de neve e poeira durante a subida ao Vulcão Lascar.

A cratera em atividade do Vulcão Lascar.

Cenário de tirar o fôlego no Deserto do Atacama.

A imponente cratera do Lascar.

Vista do lado oposto à cratera do vulcão.

A lagoa Lejía vista durate a subida do Vulcão Lascar.

Caminho de volta a San Pedro de Atacama.

Lindos cenários de deserto na volta à cidade.

Vegetação de deserto no Atacama.

Um simples, porém satisfatório almoço na base da Ayllu Atacama.

Muito frio no mirante da Lagoa Lejía.

Lu e a lagoa.

Nós e a lagoa. E o Lascar na esquerda.


Nem tinha começado ainda e eu já estava meio estranho.

No meio do caminho, já mais para lá do que para cá.

No topo da cratera, nosso guia caçador de capacetes também era um homem morto.

O experiente guia David também estava bem cansado no final da subida.

Consegui, bixo!

Consegui...

A Luciana tirou de letra.

Uma guerreira e sua merecida vitória.

Conseguimos!

Para Saber Mais



Todas as fotos e vídeos, exceto quando creditados, foram registrados por Herbert Mattei de Borba e Luciana Martins durante a viagem relatada. Este post foi redigido por Herbert.
O objetivo desta publicação é resgatar e preservar as memórias dessa viagem.
Publicado pela primeira vez em 26 de Maio de 2026
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